Como o minimalismo invadiu e transformou a minha vida



Das melhores lembranças da minha infância, uma paisagem: a praia deserta com o sol brilhando sobre a lagoa, areia grossa, vegetação alta e muitas figueiras, em uma terra ainda pouco explorada pelos homens. O sentimento: aventura! Éramos os donos do mundo: eu (caçula) e minha família, em uma belina amarela rodando quilômetros de estrada de chão pra acampar nas férias.

Na região (interior do RS) não tinha água encanada ou eletricidade e naquela época (que já podemos chamar de século passado), o melhor equipamento eletrônico era o walkie talkie. Mas precisava saber código morse pra usar, então desistimos.

Lembro do cheiro de areia molhada misturado ao churrasco na brasa, o som do molinete arremessando o anzol enquanto o pai pescava, a mana lendo, a mãe aflita berrando "Vem pra beira, tá muito fundo!", de correr sentindo o vento soprar no rosto e criar 1001 brincadeiras com um baldinho de areia e mato.

Não havia luxo (e não fazia a menor falta). Tínhamos apenas uns aos outros, a natureza, a paz do silêncio e o sentimento de sermos apenas grãos de areia na imensidão do universo.

Então o tempo passou, a tecnologia foi crescendo (e nos devorando): video games, computadores, celulares e depois do BUM da internet na virada do milênio nossas vidas jamais seriam as mesmas.

Até que a roda da vida girou mais uma vez, levando embora meu amado pai, meu porto seguro, minha inspiração... Hoje já não sei ao certo o que foi pior, se lidar com o luto, ou acordar num pesadelo, quando percebi o tanto de nada que nosso mundo havia se transformado.

Só sei dizer que o despertar veio num baque forte e doloroso, desses que a vida traz pra esfregar a verdade em nosso nariz. Então, tal qual uma bela canção do Renato Russo que diz "nos deram espelhos e vimos um mundo doente" do caos nasceu a lucidez.

A partir disso a febre passou e o delírio consumista virou loucura, abrindo alas para as lembranças daquela velha paisagem, soprando ao vento um sentimento nostálgico e trazendo uma nova certeza: é tempo de voltar às raizes, abrir mão dos excessos, jogar metade do armário fora e encher a vida de sentido.

Minimalize-se! A gente vive muito melhor com menos.