Desabafo sincero sobre abuso sexual e o caso João Deus


Peço desculpas caso a pauta de hoje fuja um pouco do direcionamento desse blog, mas diante de tudo que está acontecendo, senti que deveria me manifestar.

Nas últimas semanas, tenho observado a divisão de opiniões sobre o caso João de Deus, médium acusado de abusar de suas pacientes em Abadiânia (GO). O que mais me assusta, é a quantidade de pessoas misturando os assuntos e questionando o depoimento de mais de 300 mulheres, por "falta de provas físicas".

Tudo isso me alertou para o fato do quanto falar sobre abuso sexual ainda é um tabu em nossa sociedade e do quanto as pessoas não compreendem a real dimensão dessa situação. Por este motivo, decidi compartilhar com vocês a minha história e tudo que aconteceu a partir dela...

Silêncio, medo e desabafo

Quando eu tinha 10 anos, sofri uma tentativa de abuso ao andar de bicicleta na praia. Felizmente consegui escapar do agressor a tempo, mas recordo que, na época, as pessoas duvidaram da minha palavra e por isso eu acabei achando que não tinha importância, que o ocorrido deveria ser minha culpa e por isso fiquei calada e nunca mais toquei no assunto.

Então, ao chegar na adolescência e apresentar meu primeiro quadro depressivo aos 14 anos, acabei aceitando fazer terapia e, com ajuda profissional, consegui desabafar e colocar pra fora todo medo que guardei calada durante todo esse tempo.

Durante esses 4 anos de silêncio eu vivi um pânico absurdo de homens mais velhos (que remetiam ao agressor), andava na rua sempre olhando pra trás, achando que estava sendo seguida e quase morria quando alguém me perguntava as horas.

Um mal generalizado e presente em todas as classes

Fazer terapia me ensinou a importância de quebrar o silêncio e de falar sobre o assunto com outras pessoas. A partir disso, comecei a conversar e contar o ocorrido para meus amigos, sempre que surgia a oportunidade e a reação deles me assustou mais ainda... O volume de pessoas que criava coragem para contar a sua própria história era enorme!

Nesses 21 anos que passaram, perdi as contas de quantas pessoas me confidenciaram suas próprias experiências, vindo tanto de mulheres, quanto de homens que sofreram abuso na infância. Todas as histórias tem alguns pontos em comum: os pactos de silêncio, o medo de ser julgado e a total omissão da sociedade em relação a este assunto.

As vítimas de abuso frequentemente sofrem caladas, pois dificilmente há provas físicas. Entendam que é muito difícil alguém ter coragem de falar qualquer coisa a tempo de fazer um exame, pois frequentemente a vítima entra em choque e pode demorar muito tempo mesmo até processar, digerir e até mesmo entender tudo que aconteceu. É mais comum sentirem-se envergonhadas, entrarem em negação e tudo que desejam é apagar as lembranças da memória.

Dia desses estava discutindo o assunto com amigas e chegamos à mesma conclusão: os casos de abuso sexual estão por todas as classes sociais, ocorrendo tanto em rodinhas de elite quanto em ambientes mais humildes. Agressores não têm raça, aparência e nem status social específicos, então não se iluda com estereótipos e preconceitos.

Sobre João de Deus e mediunidade

É importante perceber que mediuns são seres humanos comuns, com suas próprias batalhas interiores a travar. Ninguém é mais evoluído, muito menos santificado, por ser medium. Mediunidade nada mais é do que a capacidade de comunicação com o plano espiritual. 

João de Deus possui uma mediunidade de cura e sempre foi claro ao dizer que ele próprio não curava nada. É fato que ele ajudou milhares de pessoas e tem seus devidos méritos por isso.

Mas entendam que todo homem tem livre arbítrio e, como ser humano, pode perfeitamente ter se perdido na caminhada e usado o poder que tem para cometer abusos sem ninguém desconfiar.

Não permita que calem sua voz

Abuso sexual é um problema sério e que acontece, frequentemente, debaixo do nariz de todos. É um crime silencioso, pois destrói a autoestima da vítima, que prefere ficar em silêncio, tamanha dificuldade em encontrar apoio e compreensão das pessoas à sua volta.

Se você sofreu qualquer tipo de abuso, não se cale! Crie coragem, bote a boca no mundo, denuncie, procure grupos de apoio, mas não destrua sua própria vida em nome do silêncio.

Se qualquer pessoa que você conhece contar que sofreu abuso, pense duas vezes antes de ignorar e achar que ela está mentindo. É essencial ter mais empatia e saber ouvir, sem julgamentos e com a mente consciente de que é uma triste realidade que acontece todos os dias e mais perto do que você imagina.

DENUNCIE:

  • Disque 100: Atendimento 24h do Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes.
  • Disque 190: Atendimento da Polícia Militar para emergências e qualquer caso de violência.